quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Vida moderna de uma cidade qualquer

Como é o seu nome? Muito prazer. Viu a chuva que deu em São Paulo? Tá tudo cheio já. Você é de lá, né? Tá de passeio ou tem conhecido aqui? Conheço sim. Mas veio a trabalho ou a passeio? A trabalho? Conheço uma mulher que trabalha lá. Ela é minha namorada. Na verdade ela é divorciada, eu também. Ela gosta mesmo de mim. Às vezes a gente sai pra dançar um forró. Conheci ela num forró ali no Clube. Sempre tinha, mas faz tempo que num vou. Ela é uma morena gorda, bem gorda. Agora menos, porque parece que fez operação. Mas olha, ela gosta mesmo de mim. Vem de vez em quando tomar sorvete aqui, nessa sorveteria. Ela gosta de tomar sorvete aqui, e gosta de mim. Mas essas coisas de relacionamento tão difícil, né garoto? Você tem namorada? Que bom. Cuida bem dela. Eu tive uma esposa. Mas a gente brigava demais. Demais mesmo. Daí terminamos. Eu trabalhava num almoxarifado lá em Itirapina. Eu era o chefe, eu que cuidava de mandar as coisas todas. O povo daqui não acredita, diz que é coisa desses pingaiada atôa, sabe? Mas num tô nem aí. Mas daí, quando saí de lá acabei deixando tudo pra ela. Ela é que tá bem. Com uma casa grande, bem grande mesmo. Mas agora nem ligo. Daí como antes já trabalhava de açougueiro com meu pai, voltei e já tava meio arranjado. Daí tudo os homi daqui da região só chamavam eu pra matar os boi. Eu matava e deixava tudo separadinho, bonitinho, pra eles chegar e só colocar no carro e levar embora pra São Paulo. Daí tinham carne pra coisa de mês!
Eu trabalhei com meu pai muito tempo, como te disse. Não tinha pra ninguém naquela época. Era só a gente que vendia, que matava. Foi assim que meu pai comprou quatro fazenda aqui. Uma delas ficou comigo, as outras com meus irmãos. Eu cuido mesmo daquele lugar, sabe? Outro dia veio o Daniel, sabe aquele cantor? O assessor dele disse que ele tava querendo comprar a fazenda. Ofereceu 200 mil. Eu fiz é ri na cara dele. Mas aquela fazendinha vale mais de 1 milhão!
Eu planto tudo as coisa, faço um café que pelo amor de Deus. O senhor Daniel depois foi me visitar e até conheceu a fazenda. Rapaz bom ele. Mas num vendi não. Cê pensa que é fácil negociar comigo? Num vivo só pra tomar cachaça não rapaz! Mas já tá ficando tarde mesmo. Precisa ir? Entendi. É bom esse sorvete, né? Que bom. Olha gostei muito de você. É bom conversar com jovens assim. Quando passar por aqui, pode passar lá na fazenda. Toma um café comigo, depois te faço um maço bem grande de verdura, pra você levar pra tua mãe. E mande um beijo pra mulher que trabalha com cê lá no hotel. Não esquece não. Vai com Deus. Que Ele te acompanhe e te ilumine. Toda a sorte pra você rapaz, toda mesmo.
Amém.

Vida noturna de um sábado moderno

- Alô.
- Alô. Boa noite. Aqui quem fala é Alberto. Nós estamos com uma promoção cultural hoje completamente imperdível!
- Uma promoção cultural imperdível é de fuder...
- Mas tenha calma meu caro amigo. Nós sorteamos o número do senhor...
- Sorteou meu número da onde, corno?
- É que consta em nossos sistemas...
- Consta no sistema é o caralho!
- Mas meu senhor, eu posso dizer ao menos a que vim?
- Diz.
- Vim trazer ao senhor informação e entretenimento em um preço que o senhor nunca irá encontrar em lugar nenhum!
- Só se for uma puta fofoqueira pra me chamar atenção, filho de uma puta!
- Meu senhor, é muito melhor que isso!
- Você não tá me entendendo mesmo. São oito da noite de um sábado. É a única coisa que me interessaria!
- Mas meu senhor, é uma revista incrível!
- Que revista o que rapaz...
- Meu senhor, você pode ler e conhecer o mundo!
- Isso eu faço pela TV.
- TV emburrece, meu senhor.
- Emburrece a senhora sua mãe, seu imbecil.
- Mas essa revista está por um preço ótimo!
- Pagar pra ler?Vai tomas no meio do seu cú!
- O senhor já está me xingando há um tempinho. Não sei se notou, mas estou tentando salvar o seu cérebro!
- Amigo, você é que tá querendo fuder minha noite.
- Meu senhor, por Deus. Essa porra dessa revista é meu ganha pão, seu Filho da Puta. Se o senhor não comprar essa merda eu tô fudido! Só de grana pra puta da minha esposa, eu tô devendo até o rabo! Agora me diz, seu merda: Você vai ou não querer essa porra!?
- ...
- Fala seu puto!
- Tem muita informação mesmo?
- Tem.
- É realmente boa?
- É.
- Vai me deixar mais inteligente?
- Sim.
- Enfia no cú.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O grito

Do auto de um galho um menino olhava a cena apavorado. Subiu ao notar os gritos que vinham em sua direção. Sem nem notar estava lá no alto. O grito era ouvido de dois animais pequenos, e ele não conseguia identificá-los. Pareciam com formigas. Mas eram tão altos os gritos e era tão alto onde estava, que de lá todo mundo parecia mesmo formiga, mas os gritos não. Subiu no topo de uma ávore cheia de troncos, com raízes pra fora da terra, raízes enromes. Subiu quase em um pulo e não parava de subir. Os gritos a cada minuto aumentavam. Ele se lembrou de que gritos menos audíveis significavam maior distância da emissão do som e não o contrário. Olhou de esgueira para baixo e viu que as formigas (ou ao menos as que pareciam com umas bem pretinhas e antenudas) e notou que elas o seguiam. Os gritos aumentando eram quase entendidos pelo menino, que acelerava o passo, a escalada. A árvore parecia não ter fim. Cansou. Bem no momento em que a árvore acabou. As formigas continuaram vindo. Eram mesmo formigas. Balançou o galho onde estavam as formigas. Eram pequenas e indefesas, agora voando sem controle, caindo para cada vez mais perto do chão. O menino estava lá no alto satisfeito em ter derrubado as formigas. Estava com medo. Ele era maior. Podia muito bem fazer o que quisesse com aqueles serezinhos. Ah! mas como era bom ser grande. Foi um herói dele mesmo. Como era bom se defender agilmente escalando tão velozmente aquela grande árvore. Olhava as coisas lá do alto. Era ser humano. Controlava a natureza inteira.
Lá do alto só não eram audíveis os gritos de socorro emitidos pelas pequenas criaturas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Coisas

Seguindo meu padrão "fim de ano", a correria me deixou distante daqui.
Então listo rapidamente como estou.
As coisas vão indo bem. As coisas andam bagunçadas. As coisas andam se encaminhando. As coisas andam meio atrapalhadas. Tive um semestre muito bom. Um ano muito bom. E uma vida, até agora, muito boa. As coisas andam meio coisadas. As coisas andam como devem andar. Sampa, aqui vou eu!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Não escrevo

Estou escrevendo menos. E há um bom motivo para isso. Acho que tem haver com a minha vida estar melhor. Daí tenho menos tempo para me preocupar em escrever. Ou talvez seja a faculdade. Estudar Letras me faz conhecer os grandes, me faz ver o quanto sou pequeno. Sem contar, é claro, com a falta de critério claro pra dizer o que é bom. Pois ficar a mercê disso assusta. Mas também não estou fazendo muitos exercícios físicos ultimamente. Sedentarismo demais cansa. Também há o fato de não querer. Tentar demais enjôa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Do amor que tenho

Acho que estávamos deitados. Os corpos pareciam flutuar, mas é quase certo que estavam repousados lado a lado. Eram mentes interligadas e acho que estávamos sorrindo. Lembro que talvez pudéssemos estar pensando, inclusive a mesma coisa. Pensamentos sobre futuro, talvez. Ao olhar nos seus olhos lembro de ter visto algo que não sei. Traduzo aqui sem detalhes, pois seria impossível relembrar em palavras o que minha mente sonha em "flash's" surreais. Mas posso afirmar que tinha um pouco de serenidade, talvez esperança e muita fé. Acho que a fé pode ser mais fiel ao que tento expressar. Algo quase divinizado mesmo, sabe? Os olhos piscantes, lentos, fundos, aspecto calmo. Algo que acalma e traz um "sentir bem".
Acho que estávamos sentados. As imagens passavam velozes na janela ou o tempo parou? Tinha um pouco de chuva na minha cabeça. Acho que sentados não lembramos que tinham outras pessoas do lado. Acho que estava feliz. Acho que ela também. Tem algo de lábios que se tocam e pronunciam grudados palavras entendidas por movimento. Há algo de distante da realidade, de novo. Acho que alguém não estava tão feliz. Tinha algo de abraços, talvez um pouco de tensão, preocupação ou falta dela, tinha um pouco de lembranças, traumas, havia uma esperança meio morta, mas distante. Havia mais. Muito mais mesmo e eram as coisas mais belas. Havia promessas, isso era lindo, sem contar as resoluções, conversas maduras. "O corpo, minha querida, se perde. A essência tem que ser o eterno elixir do par".
Acho que poderíamos estar de pé. Daí o abraço escondido atrás do caminhão ou tinha algo de sorriso e algo de bebedeira. Tinha alegria no esconderijo, tinha risada. Lembro que também havia algo de dança, algo de belo, belos trajes, um olhar apaixonado distante. De perto. Muitas pessoas ao lado, mas lembro que só tinha uma. Lembro dos corpos se aproximarem e lembro das belezas internas que, se não onisciente, via nos sinais tamanha intensidade.
As coisas se misturam. Não há uma lógica. E nem era mesmo pra ter. Confesse! Você leitor, se não amou, então não entenderá. Não mesmo. A temporalidade presente nesses dias se perde. Não há mais tempo.
Afinal, do que eu me lembro mesmo, era da menina que disse que amava cada pedaço de mim. Acordar sozinho pode ser duro, mas logo não será assim. Um "Eu te amo" pode ter várias interpretações. As palavras valem muito. Mas pra que dizê-las? Amo essa menina como a mim mesmo. Amo tanto que sinto o frio na barriga das crianças. E porque seria diferente? Afinal, quando alguém resgata sua essência, respeitando as diferenças, há algo de felicidade escondido em algum lugar.
Lembro só do abraço. Da frase no ouvido. Do amor quebrando minhas maldições.