Já se sentiu desesperado? Já deixou as lágrimas caírem na boca para sentir o gosto salgado e o nojo de se deixar entregar a dor? Já se sentiu em meio a uma situação em que ela parece tão incomoda que é cômoda? Já teve vontade de ver a pessoa amada com a nova pessoa? Pois o homem que escovava os dentes por minutos intermináveis e olhos vidrados no espelho, não sabia mais ao certo o que estava fazendo ali. Algumas vezes sentia a garganta apertada, se lembrava dela. Sua imagem. Imaginava-a tendo orgasmos com um desconhecido qualquer. Imagens surgiam do nada, sentia prazer com sua dor. Saiu do banheiro, chinelo molhado grudando no piso que deixava molhado no corredor que tantas vezes ficara molhado pelos pés dela também quando, ao sair do banho iam juntos. Incontroláveis. Eram as paredes que encostavam em suas costas e o piso úmido o mesmo que ouvia seus urros meio abafados, aquelas que já tiveram outro corpo. Tantas e tantas outras coisas. Do jantar que sentado na mesa sozinho, restavam apenas os ovos mexidos cheio de bobagem da geladeira, iguais aos feitos naqueles dias. Será que ela comia ovos com ele também? Seus olhos lacrimejavam e saíam de sua boca as mesmas promessas para esse qualquer? Ele sonhava enquanto pensava nisso em poder ver mais e mascar a dor. Já que não podia mais respirar tranquilo, queria que a dor fosse cada vez maior. Queria mesmo se fechar. Ouvia a canção mais triste que podia. Sabia que ia passar. Não sabia quando e nem porque. Desenhou linhas em uma folha de papel. Rabiscou palavras soltas. Queria arrancar todos aqueles pensamentos de sua mente. Assistia a filmes pornográficos na televisão por distração. Via programas alheios. Evitava coisas sobre morte. Queria algo sobre amor. Aqueles bonitos. Daí chorava. Chorava mesmo tudo o que podia. Ela não era daquele tipo que sempre se entregava? Como era doce pensar nela se entregando como sempre fazia! O quanto prazer não sentiria. E a dor tinha um gosto cada vez mais doce. Ou amargo. Aquele do café com cigarro. Aquele de folhas fortes. Aquele de chá sem açúcar. Aquele de amor perdido. Passional. Nada pacífico. Que destrói por dentro. Pegou da mesa aquele caderno em que ela rabiscara seu nome jurando amor eterno. Pendurou na parede. E dormiu sentindo o prazer da dor. Acordaria no dia seguinte e o que faria? Ele não sabia, mas como onipresente, conto-lhe. Sofrerá mais um mês. Pensará mais um ano. Uma noite acordará e não lembrará mais dela. Irá rir um dia inteiro contando como era. Sofrerá cada dia menos, cada dia mais. Mas no final de tudo (prefiro sempre assim) será feliz. Mesmo morrendo sozinho. Mesmo digerindo dores.Ou paixões doloridas. Ou amores.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Um segundo
Enquanto as sombras cobriam aqueles dois olhos castanhos e ofuscavam sua vermelhidão, aquele nariz com ponta circular, traços finos, com a boca pequena, lábios duros, pele branca meio corada de Sol, a luz mostrava um corpo magro, muito magro, de uma fineza que parecia fazer quebrar ao toque. Não sou lá muito bom em detalhamentos, nem perito em descrever pessoas. Tanto que essa descrição não faria nem a Cia encontrar a tal pessoa baseado nisso que digo. Mas o que tento explicar é que era algo entre o masculino e o feminino, entre a leveza feminina e a incurvilinidade masculina. Essa cena coberta entre as sombras, ao se afastar mais para a direita mostrava, pela mesma luz que iluminava parte daquele corpo, uma cadeira de madeira marrom com jeito de casa de vó. Completando a cena, uma mesa de canto e um telefone, um sofá vermelho com um controle remoto e uma almofada preta pequena, além de um lápis e uma folha. Esses eram os objetos da esquerda. Nas sombras estava a televisão desligada, um aparelho de DVD e um toca-disco. Em cima, um livro de Goethe, outro de Drummond e umas tiras do Calvin, em livro. Mas isso tudo encoberto pela escuridão. Continuando o momento escolhido por mim, notem o espelho. Barroquices a parte, o espelho mostra uma segunda pessoa. Mostraria se luz tivesse, portanto, segue a como seria. Mais visível que a primeira, mais sem mais descrições por minha parte no momento. Ainda se notava o outro sofá, maior que o primeiro, mas não se observava o que havia de objetos. Mas, haviam mais livros e um Ipod com fone de ouvido. A luz vinha de um abajour que enfeitava a parede que a primeira forma observava, próximo à janela. A luz ficava por trás da segunda pessoa de pé, que seria apenas um espectro pelo espelho. Era um apartamento. Do lado de fora da janela via-se uma noite meio vazia de luz. Nem Lua, nem estrela, meio nuvem, meio jeito de céu mal pintado por criança preguiçosa. Desço a cena alguns andares. Aliás, vou passando andar por andar. Nada de interessante noto. Só TV ligada e a sagrada reunião em torno. Chego no chão. Lá se percebe um carro parado, cor preta e uma luz que pisca vermelha no para-brisa. Deve ser do alarme. Mas a cena parada não mostra a continuidade da luz. Há uma outra que vem de um caminhão de lixo que passa pela rua que apertou o freio naquele instante, e a intensa luz vermelha veio bater no vidro do carro. Se misturam com um sinal vermelho na esquina onde passam carros. Agora não mais. Há um branco e um prata parados nesse farol, mas suas visões são bloqueadas pelo caminhão. Isso se observando de dentro do carro preto. A cena anda. Poucos segundos. Agora o rosto também se mostra tenho que mudar o foco e mostrar o rosto que vimos apenas no espelho. Rosto de senhora em começo de feira, normal. Corpo de casada, mãe bem mãe, que cozinha e que passa, que não corre nem anda, que não é gorda, nem anoréxica. Corpo médio. De mãe, oras. Os passos que ela dá são em direção a um objeto ainda não citado na cena. Estava no chão. Era um batom. Cor vermelho, flutua na mão da senhora. Vai em direção das fina forma. Nota-se agora naquela figura algo de menina. O corpo era grande e fino. Mas é mesmo uma menina, não passa de 13 anos. O batom é entregue a filha. As lágrimas que estavam a meio dedo dos lábios da menina em minha primeira descrição, agora já pingavam da face, enquanto cessavam dos olhos. As duas se olhavam de olhos atentos. Os carros lá de baixo voltavam ao barulho normal, o vermelho já se tornara verde e a tal luz no vidro piscava. O lixo já havia sido recolhido. Depois que pegou o batom e foi beijada, foi em direção a uma escrivaninha situada perto do abajour, que não antes descrevi por questão estilística. De dentro da gaveta saiu um notebook. Do outro lado da sala, a mãe pegou o livro que estava em cima do toca-disco. Pegou o papel e o lápis no sofá e escreveu: "Hoje minha filha ganhou seu primeiro batom. Se assustou com a ideia de crescer. Arremessou-o ao chão e disse que não queria ser mulher. Seu corpo era diferente aos das outras meninas. Era sem graça. Sem açúcar. Sem curvas. Daí disse o que ela precisava ouvir. Tivemos daquelas eternidades que duram segundos. Voltarei ao meu Drummond. Estou feliz demais pra ler aquelas cartas tristes daquele rapaz. Espero que esteja bem, meu amor. Com carinho... sua esposa". Se levantou e abriu uma gaveta embaixo da televisão, colocou o papel onde via-se pelo menos mais 20 iguais a esses, é claro, com diferentes conteúdos. O que ela disse para menina? Algo dessas coisas que diz mãe que dão aqueles baques tão baquentos. Aliás, a cena que acompanhou foi essa pequena eternidade. Sabe aquele segundo que gostaríamos de levar para a vida inteira? Sabe aquele momento que nunca se esquece e que a gente nem lembra como foi? A vida é a soma de um monte deles. As cartas eram pro pai, que trabalhava e vinha uma vez por mês. Ela as escrevia para lembrar de tudo que passara durante seus dias ausentes. A menina, no outro canto nem sonhava com isso. Abriu sua página pessoal na internet. A luz já tomara conta de toda a sala, e do espelho a mãe conseguiu ler: "Uma mulher". O vermelho nos lábios da menina foi mais um detalhe entre as vermelhices daquela noite. Criança preguiçosa gosta de cor. E sabe de cor como dar o toque final. Daí a cena corre... e acaba.
terça-feira, 29 de junho de 2010
O que há de menor
Aumentam-se as vitórias e na mesma proporção, as doenças do ser. Durante um período longo da vida não tinha nada. Ao ganhar, me senti menor. Antes era o que não tinha assim como muitos. Agora era o que tinha menos entre os que tinham. Busquei ter mais. Trabalhava todo dia, ganhava pouco, estudava pouco. Cresci nos negócios, ganhei meu dinheiro. Mas ainda vivia uma vida de classe baixa. Era a elite de quem não tinha nada. Quis mudar. Estudei mais. Me tornei um universitário. Era bolsista. A empresa era minha. As coisas iam bem. Era grande, a empresa ainda pequena. Estava entre os melhores no meio dos menores. Quis ser grande. Me engoliram. Quis mudar de cidade. Mudei de ares. Mudei de curso. Fui para uma grande universidade. Morava bem. Era um pequeno chegando entre grandes. Era Classe C ou B. Era o pior entre os melhores. E assim a vida caminha. É assim que as coisas andam. Me contaram que parado não sinto que estou preso. Mas se sempre estou preso, não era aqui que eu deveria ficar? Como dói lutar. Como incomoda crescer. Acho que como comentaram, sou parte de uma geração que não sabe crescer. Que tem tudo na mão. E mesmo pra quem não tem nada, tem muito. E não me venham dizer que são imposições capitalistas, não. Estou tão dentro quanto todos. Discutir conceitos sócio-econômicos-psico-somáticos as 4 da manhã em uma madrugada onde a morfologia deveria ser sua companheira de trabalho demonstra o quanto é difícil conviver com as coisas. Todas elas.
Acho que esse desabafo me bota de novo na ativa. Tenho passado meus dias lutando. Esqueci um pouco dos meus sonhos mais impossíveis. Aprender a escrever é um deles. Portanto, sem comentários nesse texto dizendo que não gostam dessa estilística. São pouco Guimaranianos.
Faço meu back-up mental pois não ando muito vazio. HD cheio. Ideias embaralhadas. Corpo doído. Tenso. Confusões mentais. Ociosidade morta. Leio pouco, escrevo nada. Dou algumas aulas, meus projetos me empolgam. Não tenho tempo pra comer direito. Não tenho saco pra dormir. Não tenho paciência nem mesmo pro trabalho. Senti as amarras e não gostei. Me de o conforto da minha fria prisão, escondido sozinho. Com "belas manhãs", "sorrisos de criança", "belos sonhos", porque pensar a vida toda pra pensar numa obra (que aliás é a própria vida) e ser motivo de riso, ser alvo de comentários ácidos, ser considerado egocêntrico, egoísta, intrometido, folgado, ganancioso, e um encaralhado de adjetivos desse peso não está nos meus planos. Aliás, está nos meus planos esquecê-los. Todos eles. Dar mais uma pausa gigante. Acho que é por isso que não termino nada do que começo. Porque deve ser muito chato subir mais um degrau. Depois do meu primeiro livros, terei eu que escrever outros melhores? Depois do meu primeiro milhão, não haverá torcida pra que eu o perca? E como ganharei o segundo? Não serei o menos rico entre os ricos? Cansei da disputa. Cansei de tudo. Olhou pra mim atravesse a rua. Atravessou, corra. Ando feliz. Com o que, não importa. Já basta de olho grande. Pois de resto, dava pra ser grande, se não estivesse entre o que há de menor.
domingo, 20 de junho de 2010
A nauseante flor contemporânea
Por entre os olhos jovens da minha geração
Vejo um olhar meio cínico que tenta contornar
Tudo que de chato as lutas velhas almejavam
Que sem sorte, tentaram e ferraram esse lugar
Nasci em meio ao fim do sonho
Meio fio histórico, vitória da lenta luta
Lida hoje por olhos sedentos do sangue de qualquer luta
Buscando algo que eu acredite, entende? Algo de luta
Olho de quem nunca enxergará (destino filho da puta)
Nasci em meio ao marasmo histórico
Hoje as ruas estão cobertas de flores
Que nem sei mais se são realmente feias
E nem ao certo se são realmente flores
Mas não se diferem nem das flores, nem das feias
Nasci em meio à nova onda desacreditada
A ditadura era quase uma antiga realidade
A democracia era uma quase nova realidade
Que de real e de verdade, não houve, ora, hora certa
Nem mesmo algo que realmente tenha dado certo
Nasci em meio à revoltados pós-revolucionários
Hoje se criam revolucionisses pra ver se cola
Criam-se novos estilo musicais e literários pra ver se cola
Repetem-se os mesmos erros dentro e fora da escola
Colam-se as provas, as citações, crimes aprendidos na escola
(e merece uma breve quebra revoluciosa [pra ver se cola]
que em brasília [em minúsculas] o crime tem feito escola)
[Amém]
Nasci em meio à era democratizante, descentralizante, neoliberalizante
Cortaram uma flor cinza que nasceu no coração de um jardim florido
Aprendemos a fazer certo, (errado) mas sempre florido
Cortaram a tal flor, que era mortal, em meio ao florido meio nacional (florido)
E entre vitórias, revoltas e paralisações, continuo sempre fudido
Nasci em meio à mesmice cíclica do não ter o que dizer...
Por isso, sem fôlego, escrevo por escrever
Discuto por discutir
Me faço eufêmico pra não ferir
Conto pequenas inverdades pra não mentir
Nasci em meio ao tédio teórico.
Ou me entrego ao nostalgismo dos clássicos literários
Ou me entrego ao clássico ostracismo literário
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Rolimã
Viu na ladeira o menino farroupilho sentado em madeira velha. Rodas girando. Alta velocidade. Corpo e complemento eram menino e pedaço de pau. Se para a direita o cérebro movia os ossos, para lá iam os emadeirados. Viu e gostou, sorriu e pensou que talvez mais velocidade faria bem para ele também. Imaginou o tanto de coisa que faria, o tanto de lugares que poderia estar em pouco tempo, as coisas que veria. Ir ao Japão ou a China, hein? Mudar de ares a todo tempo, viajar, ver o pai que mora longe, ir na padaria comprar pão. Era ou não uma tremenda solução? E os dias que chegava aquela tia chata, poder fugir sem ser visto, correr o máximo que podia. Ia ser uma delícia ter o vento batendo forte na cara. Ia compor seu espírito de coisas boas, de energia, velocidade. A adrenalina ia lhe fazer bem.
Claro, caro leitor atencioso e detalhista, que ele não tinha consciência desses acontecimentos, que narro como narrador "heterodiegético colegiado" que lê na essência humana o que um corpo sente ao sentir tamanhas sensações benéficas ao bem estar. Claro que percebeu meu tom retórico rebuscado rente ao rito da criação literária. E também óbvio é o fato de ter compreendido no fundo de sua alma que falo de alguém que ainda não disse, mas sabe quem é, mas não minto em tal afirmação e era exatamente aquilo que sentia, como já antes afirmei, sem saber. Aliás, ainda não te contei, como vistes, de quem falo e ora, não padece levar o dia todo pensando e repensando, retomando e tramando as ideias, para notar que se trata de uma criança. Quem a não ser ela desabrocharia em sonhos tão velozes de maneira tão ímpar? Quem seria tão ingênua a ter de desejo uma tábua e rodas de rolimã? Não falei de carro importado, de avião. Sabe disso. Falei de pau velho, madeira podre.
Passada a intromissão lírica do meu eu, retomo e conto que andando pela rua, o menino e o irmão estavam. Quando de súbito encontrou. Olhou ao irmão que sem entender retribuiu com um olhar confuso. Abaixou e encostou no objeto. Nos seus muitos 4 anos de vida, nunca havia pensado em realizar tamanho sonho. Era perfeito. Não sabia ele que o dito cujo outrora fôra uma caixa de fruta, daquelas que se vende uva e que agora estava aos pedaços. Mas era o seu passaporte para o mundo. A possibilidade de conhecer todas as coisas. Pegou a velha caixa. O irmão soltou um "Solta isso", que efeito nenhum surtiu. Desistiu e sorriu. Foram pulando felizes. Na esquina a mãe olhava com olhar vívido. Os olhos do garoto brilhavam. A mãe parecia confusa. Na cabeça do menino a mãe já gritava de felicidade. Era o seu momento. Sua conquista. Corria pulando, como em conto de fadas. Chegando na esquina, um sorriso na face. A mãe o olhou. E daquela distância gritou a todo o pulmão, para quem quisesse ouvir: " Larga esse lixo agora, seu capeta!"
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Vida curta?
Outro dia ouvi dizer que a vida é curta, e que "portanto curta a vida" e trocadilhos assim. De pensar melhor, sorri. Quanta baboseira dizem, não é? Querem mesmo me fazer acreditar que viver 60 anos, sei lá, é pouco? Que não devemos parar de fazer as coisas porque logo vamos morrer? E ainda com essa pressão infinita não me querem depressivo, ansioso, com crises de pânico e existencialismo? E se ainda, somado a isso, podermos posterior a vida viver mais, o que me diz? Daí me fazem correr para girar mais rápido a máquina econômica? Ratinhos rodando a roda que nunca soube pra que serve? E eu nesse esforço de ir bem rápido pois já vou morrer? Afinal, nessa vida, não a nada mesmo que eu seja obrigado a fazer!
Daí todo mundo atrasado, sem se olhar, se notar, perceber as coisas em volta, sem sentir, não dá tempo de sorrir, só quando para, mas pra descansar, que amanhã vai voltar, pra acordar, só sonhar quando em sono, no lugar, na manhã despertar, estudar, trabalhar, depois quando não faz nenhum nem outro, ir dançar, se esbaldar, se divertir, descansar, distrair, poder beber, ou fumar, mais cuidado pra não exagerar, a vida é frágil, vá com calma, se errar, vai acabar, se medicar, não parar, não parar...*
* uma pausa pra respirar...
... não parar, pra seguir, conseguir, vencer, lutar, jogar, ganhar, viver, torcer, esperar.
Advogarei contrário a isso. Permanecerei inapto. Uns dias. Parado. Estática evolutiva. Estátua de homem. De carne e osso. Pensando sim, vez em quando. Respirando sim, sempre, pois a isso tenho obrigação. Sem discursos anticapitalismo, sem discussões teóricas sobre imposições sociais. Sem implicações maiores, nem menores na minha opinião. Parado. Só pra olharem, me encherem o saco e dizerem que não faço nada. Que a vida é curta. Ao que me bastarei em dizer: Cada minuto perdido na minha vida sentado sozinho em um banco de praça sem fazer nada vale o mesmo que um minuto fazendo o que chamam de útil.
Quanto eu, escritor de futilidades, ou teórico da linguagem ou apreciador da literatura, faço crescer o PIB do país? Nada.
Só tento fazer com que as pessoas parem um instante. Quem sabe nossos devaneios não possam servir de afago para que as pessoas responsáveis por aumentarem o que quer que seja possam se achar mais normais?
domingo, 18 de abril de 2010
A lista
Abriu a lista de coisas a fazer. Abril, o mês já passará e ele nem viu. Talvez em maio ele possa acertar. Escolher outros dias pra comemorar. Olhou-a de novo e anotou o que já havia feito. Eram uns bons 20 tópicos, desde ligar para o banco até estudar sintaxe. Desde visitar sua mãe até voltar a correr. Arrumar sua casa, arrumar seu quarto e um otimista arrumar a vida. E assim ía. Reorganizou o cronograma. Pegou cada tarefa. Pegou cada obrigação, cada problema à resolver. E mandou pra putaqueupariu.
terça-feira, 30 de março de 2010
Sem som
Incerto ao seus ouvidos o que de nada há para ele. Insonoro sopro divino, musical. Sonso, sem ser santo. O som. Tentara tantas e tantas vezes explicar sem sucesso. Desde que nasceu, quando ainda em primeira infância ou já quando na escola via meninos e meninas se balançando motivados por algo que os unia. De lado, olhando para um amigo, gesticulou para saber o que era aquilo. Chegando em casa, se lia nos gestos daquela mãe mais uma vez:
" Filho.Tantas vezes já lhe disse. A música é um som. Não há como explicar."
Lágrimas, nem tantas, mas doídas. Como que algo assim não se explica? Sentindo nojo de si, correu e sentou ao lado do irmão. Esse também entendia os textos gesticulados, cada pontuação facial, cada elevação de tom das vozes corporais.
" Posso tentar explicar. Mas acho que não vai sentir o que é."
Pegou uma folha e um lápis. Ligou o som e rabiscava de acordo com o que, dizia ele, sentia ser a música. Ao terminar, a folha rabiscada foi destacada do caderno e observada por coisa de dias. E assim continuou.
Todo dia da vida, vidrado de tatear tácito vento trazente da música. Tentava triste, buscava e rebuscava cada novo conceito. Quando velho, já entendente das coisas, com teses acadêmicas sobre música e surdez, e coisas da vez, conheceu um menino sem som. Visível.
Se balançava como meninos e meninas que se lembrava. Algo o motivava. Era levado de alguma forma, mas não tinha poder para aquilo. Em gestos, os textos foram esses:
" Meu menino, o que está fazendo? "
" Estou dançando."
" Qual música? "
" A que está tocando agora. Não sente? "
" A música? Sentir? E como você ouve? "
" Sabe que não ouço. Sinto. "
" Então me diga, o que sente? "
" Isso."
Manteve-se balançando. Olhos vidrados no céu. Não bem som, mas naquela tarde sentiu o que para ele, seriam algumas notas musicais. A água que desceu do rosto do homem que aprendeu com o menino sobre música, molhou nem meio palmo de chão. Mas a música que ouviu naquele dia fez com que o chão se abrisse, o céu se abrisse. Som com sentido, sentido.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Últimos passos
- E há quanto tempo buscava isso?
- Nunca busquei. Isso não se encontra assim.
- Calma. Você não me entendeu.
- Não, não. Quem não me entendeu foi você!
- Por quê?
- Isso não se acha, se ganha.
- Merecimento você diz?
- Muito mais que isso.
- Mais do que merecer?
- Não sei bem. Me parece mais. Há que ganhar mesmo, entende?
- Mas afinal, ganha quem merece oras!
- Tudo bem. Acho que merecimento pode estar certo.
- Como sempre, contradiz-me sem pensar.
- Faço isso por merecer, não sei se nota!
- Não merece nem meu riso, seu idiota!
- Mereço pois o tenho.
- Mas merecimento nem é tudo mesmo, né?
- Provaste a mim do contrário.
- Provei nada. Se cansou de argumentar.
- Nunca me canso.
- Por que não?
- Porque você não merece.
- Pois, não?
- Talvez um pouco.
- Você é ridículo.
- Sei disso.
- Mas se não buscava, o que fazia?
- Esperava para poder merecer.
- (Ninguém merece...)
- Ouvi isso... e mereço!
- Merece mesmo, mostre!
- Tenho feito isso há tempos.
- Digo que desde de sempre és arrogante.
- Ei de ser o que dizes, pois conhece-me.
- Pare de asneiras. Ironias não me atingem.
- Tanto atingem que perdeste a linha.
- És perito na arte de me irritar.
Uma voz pronuncia palavras decoradas em ensaios:
- Aceito.
A mesma voz diz palavras semelhantes, às quais ela responde:
- Aceito.
Um beijo longo.
- Nunca busquei. Isso não se encontra assim.
- Calma. Você não me entendeu.
- Não, não. Quem não me entendeu foi você!
- Por quê?
- Isso não se acha, se ganha.
- Merecimento você diz?
- Muito mais que isso.
- Mais do que merecer?
- Não sei bem. Me parece mais. Há que ganhar mesmo, entende?
- Mas afinal, ganha quem merece oras!
- Tudo bem. Acho que merecimento pode estar certo.
- Como sempre, contradiz-me sem pensar.
- Faço isso por merecer, não sei se nota!
- Não merece nem meu riso, seu idiota!
- Mereço pois o tenho.
- Mas merecimento nem é tudo mesmo, né?
- Provaste a mim do contrário.
- Provei nada. Se cansou de argumentar.
- Nunca me canso.
- Por que não?
- Porque você não merece.
- Pois, não?
- Talvez um pouco.
- Você é ridículo.
- Sei disso.
- Mas se não buscava, o que fazia?
- Esperava para poder merecer.
- (Ninguém merece...)
- Ouvi isso... e mereço!
- Merece mesmo, mostre!
- Tenho feito isso há tempos.
- Digo que desde de sempre és arrogante.
- Ei de ser o que dizes, pois conhece-me.
- Pare de asneiras. Ironias não me atingem.
- Tanto atingem que perdeste a linha.
- És perito na arte de me irritar.
Uma voz pronuncia palavras decoradas em ensaios:
- Aceito.
A mesma voz diz palavras semelhantes, às quais ela responde:
- Aceito.
Um beijo longo.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Vida qualquer em uma grande cidade
Sumiu e ao silêncio se entregou. Andou por ruas atoladas de prédios vertiginosos e vestiu de cinza seu espírito. Em cada nova pisada, asfalto sujo, ruas ladrilhadas e calçadas com pisos desenhados, ele se recordava da última palavra.
"Acabou".
Os cenários lentamente iam mudando e trazendo novas arquiteturas, construções antigas e talhadas de glammour daquele tempo. E sem cessar a palavra que lhe afligia martelava constante e persistente.
"Acabou".
Mas se acabou, as coisas não acontecem mais? Isso significa que não há mais no que acreditar? Ou seja, que daqui pra frente nada mais vai existir como antes? Nada? Nem sombra? Nem ao menos, diabo, um pouquinho que fosse? As ruas se abriam em avenidas. Os viadutos eram vistos de baixo. Os aviões circulavam nos céus. A fumaça saía de todos os carros. De todas as fábricas. Os mendigos enfileirados sorriam. Os camelôs gritavam à todo pulmão seu produto. As pessoas comiam Hot-dogs e tomavam um açaí com sucrilhos.
"Acabou".
Mas como existe fim? Isso não é coisa de ser humano? De gente burra? Que acaba com as coisas? Não é melhor que continuem? Que cresçam? Mas por que acaba? Floresçam? (Acaba por que?) Andem, evoluam? Sentou em uma praça ao lado de garotos. As pombas comendo qualquer lixo que fosse. O lixo espalhado. Em São Paulo, tem muita praça assim.
"Acabou".
Notou suas mãos trêmulas, a decepção com o fim. Poxa, mas como que acaba? Há tanto a fazer, tanto! Havia necessidade em seus movimentos. Uma pessoa decepcionada fica mesmo assim. Havia um resquício de lágrima. O chão sujo, ele se misturando à paisagem, fazia parte dela. Elevou às mãos para o céu. Os outros garotos cheiravam cola. E ele nem se importava.
"Acabou".
E ele ali, sem entender conceitos abstratos sobre fim, sobre acabar. Questionando profundamente se isso era justo. Por que? Ele tinha dinheiro, caralho. Decidiu-se: baforou no saco mesmo, já que a porra da pedra havia acabado.
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